É preciso incluir as pessoas na agenda do turismo

Por: Homero Gomes | Data: 21/11/2018 11:22:00

 

De acordo com o sociólogo polonês Zigmunt Baumann, todos os fenômenos sociais globais recaem sobre a população local. Poluição, terrorismo, a imigração dos chamados “indesejáveis” e o aumento exponencial das viagens turísticas são alguns dos mais conhecidos exemplos. 

Metrópoles como Barcelona e lugarejos como Cinque Terre são igualmente afetados.  O turismo descontrolado interfere na qualidade de vida dos seus moradores, para o bem ou para o mal. É preciso encarar o problema. Como ignorar os  crescentes custos com moradia e alimentação fora do lar, a crescente insegurança e os efeitos da precarização do trabalho para os moradores de um determinado sítio turístico?

Situações como essas potencializam o surgimento dos chamados movimentos “anti-turismo”. Aparentemente, esses movimentos reforçam a idéia do inimigo interno a ser combatido. Mas, a situação é mais complexa do que parece. Paradoxalmente, as vozes da rebeldia afirmam-se favoráveis ao turismo e não contra. Sinal de que o raciocínio binário do “nós contra eles” não dá conta de explicar o fenômeno, suas conseqüências e, tampouco, apontar saídas. O povo não é o inimigo.

É preciso levar em conta a cultura cosmopolita das cidades do nosso tempo. Qual a saída? Que tal experimentar a efetiva democratização do diálogo? O desenvolvimento do turismo deve ser adequado ao princípio do direito à cidade. Logo, é preciso incluir a comunidade local no debate e na construção de políticas públicas. Essa é a questão-chave para começar a enfrentar alguns dos problemas mais complexos vividos pelas cidades turísticas brasileiras, inclusive Florianópolis. Como desprezar as vozes de um ator social numericamente tão relevante?  

É preciso garantir às futuras gerações a sustentabilidade da atividade turística. Quem discorda disso? É preciso apostar na radicalidade democrática, ainda que os ventos apontem noutra direção. É o que ocorre em Barcelona, com a criação das assembléias populares do turismo. Soa ousado? Dá trabalho? Certamente.

No caso de Florianópolis, basta revisitar a história política recente para refletirmos seriamente à respeito. O discurso belicoso do ‘nós contra eles’ tem negado à cidade os avanços necessários e possíveis. É preciso incluir as pessoas para avançar na direção de um turismo cada vez mais capaz de fazer chegar à comunidade local os benefícios do seu desenvolvimento. 

O aumento do consumo turístico, em si, não possui papel redistributivo. Cabe ao Estado e seus canais de participação orientar o seu desenvolvimento. E, quem sabe, talvez seja preciso fazer do turismo um importante antídoto contra as patologias sociais de nosso tempo. Sim, é possível um turismo à favor da feliz cidade, para as pessoas que nela vivem.

 

Homero Gomes é sociólogo e diretor do Portal Tradetur. Foi, por duas vezes, secretário de Turismo, Cultura e Esportes de Florianópolis. Também atuou como Consultor de Municipalização da Fundação do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA).

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