Flavia Didomenico e os desafios do turismo em SC

Por: Redação | Data: 28/03/2019 14:53:00

A presidente da Santur, Flavia Didomenico. (Crédito: Saul Oliveira / Divulgação)

 

A nova presidente da Santur tomou posse no dia 21 de fevereiro. Flavia Didomenico é especialista em Planejamento, Gestão e Marketing Turístico e bacharel em Turismo e Hotelaria. Ela já foi professora em cursos de ensino superior, trabalhou nas áreas de hotelaria, alimentos e bebidas e, mais recentemente, atuou como consultora em todas as regiões catarinenses e construiu políticas públicas para municípios, por meio do desenvolvimento de planos municipais de turismo. Natural de Chapecó, ela reside em Florianópolis há duas décadas. Passados os primeiros 30 dias da posse, Flávia recebeu o Portal Tradetur para essa primeira entrevista. 

 

Acompanhe a entrevista:

 

TT - Autoridades chegaram a projetar uma temporada de verão ainda melhor do que a anterior, segundo inúmeras declarações veiculadas pela imprensa. O que não se confirmou. A Santur já tem uma avaliação?

Flavia - De fato, não foi aquilo que se esperava. Tivemos uma dificuldade enorme no que se refere à demanda. O que ocorre é que se cria uma expectativa e ela não é o real. Se tivessem pego alguns números como reservas de vôo, hotelaria, etc, talvez a expectativa fosse outra. Ainda estamos reunindo com a área técnica e os parceiros os dados para podermos fazer uma avaliação mais criteriosa.

TT - A crise argentina contou...

Flavia - A gente sabia da crise argentina. E foi o que mais sentiu. Os chilenos vieram. Claro, [a pequena fatia do mercado] ainda não compensa. No entanto, houve um aumento no numero de pousos e decolagens nos aeroportos do Estado. E o que foi isso? É preciso analisar. Na Serra também tivemos uma temporada muito boa.

TT - E as pesquisas, a Santur já tem números?

Flavia - Estamos reunindo dados com os parceiros. E estamos avaliando com a equipe para tentar projetar estratégias e ações para a próxima temporada. Houve um aumento de pousos e decolagens em SC. O rodoviário diminuiu mas o aéreo aumentou e o que levou a isso? Precisamos avaliar se foi em função de charters ou voos regionais. Vamos reunir esses dados, trabalhar com o Observatório [ do Turismo]  para poder avaliar melhor e planejar as ações.

TT - O que fazer para retomar as grandes temporadas em SC. A crise argentina poderá se prolongar por mais algum tempo. Como a Santur vê essa questão?

Flavia - Vamos trabalhar o mercado por produtos, segmentado. No MERCOSUL, Colômbia, Chile. Em Portugal, temos parcerias boas surgindo ai com Florianópolis. Temos que descobrir quem é esse nosso público. Não vou sair por ai prometendo uma grande temporada, até porque não depende somente do governo. Os empresários tem um papel importante nisso, também. Qual é o papel do empresário? Tem uma época do ano em que as reservas não estão acontecendo. Então, vamos atuar juntos para reverter isso. Nós temos que saber quais são nossos objetivos. O governo é fomentador das políticas públicas. E o trade deve nos encaminhar sugestões para somarmos esforços.

 

"Vamos promover os destinos por segmentos"

 

TT - E as feiras?

Flavia - Nós percebemos que não temos critérios claros de participação em feiras. Nossa participação precisa ser mais assertiva. Saber exatamente qual o público queremos atingir. Vamos promover os destinos por segmentos.

TT - Como será a relação da Santur com as entidades do trade? 

Flavia - Estamos ouvindo todas as entidades. Já estivemos com o Fortur aqui da região de Florianópolis e com diversas entidades. Estamos fortalecendo as Instâncias de Governança, os Conselhos Municipais. E volto a frisar: vamos trabalhar com a segmentação. Então, vamos rever uma série de práticas. Esse modelo de grupo de trabalho não tem funcionado muito. É preciso buscar resultados.

TT -  O governo federal segue com a política de regionalização? E o Estado?

Flavia - Sim. Estamos dando continuidade com a qualificação das Instâncias [de Governança]. Nosso estado está em evidência, em função da estruturação das Instâncias. Somos referencia e destaque no Mapa do Turismo Brasileiro. Então, vamos consolidar essa organização do estado para o turismo, trabalhando por segmentos e não apenas em cima da regionalização. Vamos roteirizar e isso pode pegar mais de uma região com produtos integrados. Vamos fomentar a integração de produtos e nosso estado é muito favorável para isso.

TT - Algumas regiões tem demonstrado maior facilidade para trabalhar em parcerias. Já noutras regiões, a situação ainda não passou da boa vontade. Como reverter?

Flavia - Existe um estágio de maturidade das Instâncias. Algumas estão bem estruturadas, outras ainda sequer possuem conselhos. Florianópolis está começando a avançar nisso, tem essa integração com a inovação tecnológica. Cada Instância tem sua particularidade. O conceito de instância para umas regiões já está consolidado e para outras ainda não. E esse é o papel do Estado.

 

"Para cada região turística queremos fomentar pelo menos um projeto inovador"

 

TT - Como fica o desenho institucional da Santur à partir da extinção da SOL?

Flavia - A Santur continua sendo promotora e absorve as políticas públicas. Ela terá a Diretoria de Planejamento que trabalhará com a estruturação. A Diretoria de Marketing (MKT) trabalhará a promoção nacional e internacional. E teremos a Gerência de MKT digital, que dará atenção a esse meio e inteligência de mercado. Teremos ainda a Direitoria de Pesquisa e Inovação para fazer levantamento de dados, análise e gerar conteúdo para projetos inovadores. Para cada região turística queremos fomentar pelo menos um projeto inovador, seja promovendo ambiente de startaps, trabalhar com universidades ou até mesmo através de repasse de recursos. Aliar inovação, tecnologia e precisamos trabalhar melhor com os recursos que temos.

TT - O governo enviou para a Alesc o projeto de isenção de ICMS para aéreas. Há uma avaliação sobre o assunto?

Flavia - Estamos estudando muito cada segmento. SC é o estado que mais aeroportos tem. Vamos dar atenção para a regionalização e o impacto disso extrapola o turismo, é para a indústria, a educação e por ai vai. Temos que estudar muito essa questão para sermos justos com todos. Em breve teremos boas notícias. O governador está muito sensível para o turismo.

TT - O Estado tem alguns nós críticos em termos de infraestrutura. A pesquisa Fecomércio-SC destacou essa questão. Como destravar os inúmeros empecilhos jurídicos e financeiros?

Flavia - O que a gente precisa é criar o ambiente de negócios. Existe um grande gap ai. Precisamos nos organizarmos dentro de casa [governo] e integrar para atrair investidores. O que a gente sente é essa dificuldade quando apresentamos uma oportunidade e quatro ou cinco dificuldades criadas pelos próprios órgãos do governo. E isso estamos revendo no governo. Está muito positivo no ambiente do governo.

TT - Alguns destinos turísticos já apresentam situações de conflitos entre moradores, empreários e governos, em função da oferta reprimida de infraestrutura, serviços públicos e a forte demanda na temporada de verão. Vimos isso em destinos maduros como Barcelona, Paris, Viena, Veneza e outras cidades. Mas já está comçando a acontecer aqui, em cidades do Brasil e do litoral catarinense. As pessoas do lugar estão reclamando. É falta de conscientização turística? Por que as comunidades não participam dos Conselhos setoriais de turismo?

Flavia - Vamos trabalhar com as Instâncias e com a educação turística nas escolas. As crianças precisam começar a entender os benefícios do turismo em cada disciplina escolar. Definitivamente precisamos entender o turismo como negócio e somos um estado empreendedor. Pouco se percebe o quanto de negócios o turismo gera. E muitas vezes as pessoas não percebem. Essa é uma de nossas bandeiras. Leva tempo, mas vamos descobrir qual será o melhor modelo para aplicar em todas as regiões. Ai a gente acredita que esse terceiro elemento, que é a comunidade, conseguirá perceber a importância do turismo e passará a não jogar mais as taxinhas no asfalto durante o Ironman.

TT - E o orçamento da Santur. Crescerá?

Flavia - Nós criaremos novos mecanismos para termos nossos recursos e termos muito claro o orçamento de que precisamos.

TT - Uma última palavra sobre a privatização dos centros de eventos de B. Camboriú e Canasvieiras?

Flavia - Temos uma calendário de atividades. Já despachamos os processos de licitação das divisórias. O rito está de acordo. O setor de eventos está com grandes expectativas. São dois produtos com particularidades especificas. São dois equipamentos distintos e serão licitados separadamente. Isso não impede de que uma mesma empresa possa participar dos dois certames licitatórios e acabar fazendo a gestão de ambos. Os estudos estão sendo realizados para os termos de referência prontos até o fim de abril. É difícil dar datas, mas esperamos que até o final do ano, ambos os equipamentos estejam já operando. Tem que ser um bom negócio para todos.